Ilustração de robôs

As soft skills nas TI são tema escrito e reescrito desde que me lembro. A importância destas competências pode, no entanto, estar a mudar, por causa do trabalho remoto imposto pela pandemia e da evolução das ferramentas de inteligência artificial. Trabalho de equipa, resiliência, criatividade e empatia são as bases de um perfil valorizado em TI, mas uma das mais importantes é a comunicação. A forma como exprimimos e compreendemos mensagens perante públicos diferentes é uma competência essencial. Sendo parte da natureza humana, a comunicação é decisiva na maioria das profissões atuais, sobretudo em ambientes remotos. É uma das principais ferramentas para influenciar o que os outros pensam de nós e a forma como percecionam o nosso trabalho.

Algumas destas competências, em particular a comunicação, podem tornar-se escassas pela falta de interação humana que o trabalho remoto trouxe. E as poucas interações que nos restam, tentamos automatizá-las com ferramentas de IA.

A verdadeira pergunta é esta: qual é o impacto, ao longo do tempo, deste uso continuado de comunicação mediada por IA nas nossas competências?

Ilustração de mãos humanas a tocarem-se

O impacto ainda não é claro, mas o uso crescente de inteligência artificial para escrever os nossos e-mails, resumir reuniões ou até selecionar candidatos a uma vaga está a produzir uma comunicação normalizada, quase como um tradutor cognitivo das nossas intenções. Estas ferramentas deviam servir a produtividade, ou seja, o trabalho repetitivo de base, e não substituir por completo as nossas tarefas de comunicação, levando-nos a abandonar capacidades naturais como o discernimento, a intuição ou a empatia.

À medida que as pessoas se vão apercebendo do uso intensivo de IA para modificar e gerar a nossa comunicação, e à medida que a IA evolui para ser mais difícil de detetar e potencialmente usada para manipular e influenciar, isso pode, com o tempo, afetar a forma como nos exprimimos e conduzir a menos confiança e menos empatia na comunicação que não é feita cara a cara.

Equipa a trabalhar em conjunto

Outras competências podem ser igualmente afetadas, já que a comunicação não é a única finalidade do uso de IA. A criatividade, a resiliência sob pressão, a resolução de problemas e o pensamento crítico são algumas das capacidades que este uso prolongado pode atingir, porque tendemos a perder as competências que não exercitamos. Uma forma de não perder algumas delas é escrever um artigo sem recorrer a IA. Pode não ser o artigo mais bem escrito, mas é pelo menos opinativo e genuíno.

É importante tirar o melhor partido da IA para criar valor com pouco esforço, sem perder de vista os efeitos a longo prazo sobre nós e sobre as nossas relações. A IA tem vindo a aprender com os nossos padrões de comunicação, e nós devíamos, conscientemente, aprender com ela também. Continuo a acreditar que a comunicação, como soft skill, é hoje mais importante do que nunca: estamos a competir com um computador em comunicação eficaz, e é preciso esse esforço extra para gerar confiança e cumplicidade nas relações profissionais, tanto com colegas como com clientes.

Marco Gonçalves
Marco Gonçalves

Como Diretor de Experiência Digital na Lynxmind, lidera a visão e a estratégia para o desenvolvimento web e mobile, combinando profunda competência técnica com uma abordagem centrada em quem usa. Com bases sólidas em desenvolvimento frontend e um olhar criativo para o design, impulsiona a inovação nas plataformas digitais, assegurando experiências intuitivas e de elevada qualidade. Acompanha de perto as tecnologias web mais recentes e alimenta na equipa uma cultura de exigência e de aprendizagem contínua, contribuindo para o crescimento e o impacto digital da empresa.